







Como pude esquecer-me dos ITALIANOS?
LULU.
COMO?
Porque em Itália a TRISTEZA rima é com beleza.
Só me lembro de Fellini.
De Giulitta Massima.
Beleza apenas.
Do "Cinema Paraíso".
Da luz.
Tenho medo de ir a Florença.
Que é a minha viagem "de sonho".
Tenho medo que não seja como imagino.
Se não for exactamente como penso.
A minha Fé fica perdida.
E se tiver muitos turistas?
E se a luz não for AQUELA?
E se a estátua de DAVID não for/tiver aquele branco macio?
E se?
E se?
E nunca fui.
Isto faz parta da TRISTEZA portuguesa.
Esta "Saudade" do que nunca se viu.
Quando fui a Paris tinha dezoito anos.
Foi a minha primeira viagem.
Sujeita a negociações demoradas.
Os meus Padrinhos.
Os meus Pais.
A menina (eu) era demasiado "preciosa".
Sabia Deus o que poderia acontecer.
Acabei por ir.
Foi a "prenda" de anos.
A de ter boas notas.
De a minha prima não se conformar.
E de, persistente como é, "moer" aquela gentinha toda.
Até dizerem: SIM.
Não pensem em luxos.
Aviões.
Hotéis.
Refeições em Restaurantes.
Espectáculos.
Essas coisas aconteceram DEPOIS na minha vida.
Ali não.
Pensem:
Amizade entre duas garotas.
Tão diferentes.
Tão iguais.
Uma longa viagem de carro.
Espanha toda.
Pirenéus.
O meu olhar virgem.
Nunca tinha saído do país.
Cá dentro sim.
Campismo.
Algarve.
Minho.
Alentejo.
A "minha" praia. Sempre.
Primeira grande descoberta:
As IGREJAS.
A alcançar o céu.
Paisagens.
Alentejos muito maiores que o meu.
Montanhas.
Verdes a perder de vista.
PARIS.
Noite e luzes.
A minha Paris não tem (ainda) a Pirâmide do LOUVRE.
O Centre George Pompidou é A novidade.
Não existe a Disney.
A minha Paris.
É feita de edifícios "descobertos" nas ruas.
Século XIX.
Arte Nova.
Louvre durante UMA semana inteirinha.
Que não gosto de deixar as coisas a meio.
E o que tinha MESMO de ver não era a "Mona Lisa".
Mas uma escultura minúscula do CANOVA.
Vi.
Trocadero.
Montmatre e Sacré -Coeur.
Risos e parvoíces.
Éclairs de chocolate.
Carinho de tios.
Piscina com primos.
Pére Lachaise para levar flores ao JIM MORRISON.
Quem me deu os "sous" para as comprar?
O Padrinho/tio.
Que nem sabia quem era o Jim Morrison.
Mas pouco lhe importava.
E já que era uma "missão" que EU tinha que cumprir.
Lá foi comigo e a filha.
Primas.
Gratas pela CURIOSIDADE.
Que não NOS/ME matou o gato.
E no Pére Lachaise estava um JUDEU.
Que me mostrou campas.
E como oferecia pedras em vez de flores.
E o braço com um número tatuado.
Para não esquecer.
Faubourg Saint-Honoré.
Avenue Montaigne.
A mulher mais bem vestida que vi até hoje.
Vestido branco com bolas pretas.
Cinto de verniz preto.
Escarpins pretos.
Chapéu e luvas.
Perfume.
Não me atrevi a entrar em nenhuma loja.
CHIÇA!
Que as empregadas eram TÃO ELEGANTES!
Estrelas de CINEMA.
De nariz empinado.
Ainda me "corriam" a pontapé.
Eu sem pedigree.
Só estar lá fora, a espreitar as montras, já era um privilégio.
"Desforrei-me" no Marché aux Pouces.
Antes da moda ser
vintage.
Eram coisas só velhas.
O metro.
Os Punks.
As margens do Sena.
Pontes a pé.
Centre George Pompidou.
Uma sala CHEIA de Vieiras da Silva.
Lágrimas a queimarem-me os olhos.
Viagem de volta.
Sozinha.
Num autocarro.
As mulheres que me "tomaram sob a asa".
O motorista que me deixou "em casa".
Por isso tenho "resistido" a ir a Paris com as filhas e o marido.
Terei de ir um dia.
Já está prometido.
Disney.
DEUS MEU!
PORQUÊ?
Tortura.
Assusta-me tanto que a minha Paris já lá não esteja.
Que a tenha sonhado.
Foi mesmo verdade o JUDEU?
E a Senhora que parou na rua para me dizer " jolie fleurs"?
E os amigos no campo.
E o RECEBER.
Flores como "obrigada".
Entradas de melão com presunto.
Em pratos de folhas verdes.
Sobremesas de bolos.
De que nem sei o nome.
Chocolate quente.
Livros.
En Français.
O engraçado é que:
Eu já PENSAVA em francês.
SONHAVA em francês.
Bois de Bologne.
Jardin des Tuilleries.
Folhas de cores no princípio do Outono.
Será que ainda lá estão?
Compreendem?
Compreendem-ME?
Hoje Vesti:Casaco e Saia LANIDOR;
Francamente:
Ficam-me um bocado mal.
A saia dança-me.
Não me apetece mandar apertar.
É INVERNO.
Na Primavera se verá.
Camisa ANA SOUSA;
Tem botões de punho.
Meias CALZADÓNIA;
Sapatos ZARA;
Mala MANGO;
Casaco de Agasalho LANIDOR;
Abracadabra:
Já não se vê a roupa.
EH! EH! EH!